Girls Power

Mas afinal o que é esse tal de feminismo?

Antes de começarmos o texto desta quinzena, deixe-me fazer algumas perguntas:

  1. Você concorda que uma mulher deve receber o mesmo valor que um homem para realizar o mesmo trabalho?
  2. Você concorda que mulheres devem ter direito a votarem e serem votadas?
  3. Você concorda que mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha da profissão, e que essa decisão não pode ser imposta pelo Estado, pela escola nem pela família?
  4. Você concorda que mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens?
  5. Você concorda que cuidar das crianças seja uma obrigação de ambos os pais?
  6. Você concorda que mulheres devem ter autonomia para gerir seu dinheiro e seus bens?
  7. Você concorda que mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães?
  8. Você concorda que uma mulher não pode sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou a obedecer ao pai ou marido?
  9. Você concorda que atividades domésticas são de responsabilidade dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres?
  10. Você concorda que mulheres não podem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em um relacionamento afetivo?

Se você respondeu “sim” para tudo, ou, pelo menos, para a maioria destas perguntas, caro leitor, você é feminista.

Infelizmente, mesmo nos dias de hoje, com todo o acesso à informação, ainda há muito desconhecimento sobre o que é o feminismo. Esta semana, ouvi uma colega de classe dizer que não era a favor do feminismo, e sim da igualdade. A frase chega a ser irônica, pois, como acabamos de constatar, feminismo é igualdade.

Ao contrário do que muitos ainda pensam, o feminismo não é sobre ódio, nem sobre a submissão dos homens perante as mulheres; o feminismo surgiu com o intuito de por fim às diferenças entre os gêneros.  Justamente por isso pode-se dizer que ele não é o contrário do machismo: o feminismo é uma doutrina que busca construir condições de igualdade entre os gêneros, enquanto o machismo é um comportamento cultural que coloca o homem como superior à mulher.

Surge então uma questão importante quando falamos sobre as dúvidas existentes acerca do feminismo. Se o movimento é sobre igualdade, qual a necessidade de a origem etimológica de seu nome estar associada ao sexo feminino?

Para entender isso, temos de voltar ao final do século 19, quando as mulheres começaram um movimento social e político com o objetivo de conquistar os mesmos direitos legais que os homens possuíam na época. E eis aí a resposta – o feminismo foi batizado com este nome, à época, porque os homens já possuíam o que as mulheres buscavam.

E, ao contrário do que alguns acreditam, esses direitos ainda não foram conquistados por completo. Com o advento das redes sociais, vemos cada vez mais que ainda há desigualdade entre homens e mulheres, mesmo nos países mais desenvolvidos. Recentemente, a realidade sobre a desigualdade salarial ganhou destaque, tendo como uma das porta-vozes da notícia a atriz Jennifer Lawrence, inspiração de várias garotas da sua idade.

Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, as mulheres ainda ganham 30% a menos que os homens para exercer as mesmas funções no Brasil. Também são maioria no trabalho doméstico. Quando trabalham fora, ainda são as maiores vítimas de assédio sexual, normalmente cometido por um homem com cargo superior na hierarquia da empresa.

É fato o quão mais sexualizadas as mulheres são, em comparação aos homens. No Brasil, tal realidade vem  à tona, mais do que nunca, no Carnaval: a mulher tem de ter lábios fartos, quadril largo, corpo cheio de curvas e sempre tem de estar disponível.  Não se vê um pensamento análogo quando tratamos dos homens que andam semidespidos, tanto no Carnaval quanto nas demais épocas do ano.

Isso para não entrar no campo da erotização infantil. Em 2015, os tweets sobre uma participante do Master Chef Júnior, então com 12 anos, causaram espanto e revolta. A partir deste caso, o coletivo Think Olga lançou a hashtag “MeuPrimeiroAssedio”, incentivando mulheres a revelar a primeira vez que sofreram algum tipo de violência sexual, física ou psicológica. Ficou claro que Valentina, a garota em questão, infelizmente não está sozinha na lista de crianças tidas como objetos sexuais dentro de uma sociedade pautada na cultura do estupro.

Sim, conquistamos o direito a voto, e o direito ao trabalho fora de casa, mas ainda não conquistamos o fim da violência por questões de gênero. Segundo a Secretaria de Políticas para Mulheres, do Governo Federal, a cada 12 segundos uma mulher é violentada. De acordo com o Mapa da Violência, a cada 10 minutos uma mulher é estuprada. O IPEA divulgou outra triste verdade: a cada 90 minutos, uma mulher é assassinada simplesmente por ser mulher.

O feminismo vem não para dizer às mulheres como se vestir, seja roupa “demais” ou roupa “de menos”. Vem exigir que essa escolha pertença única e exclusiva às mulheres, e que, independente dela, haja respeito nas ruas e nos ambientes fechados.

O feminismo não prega a cara lavada ou a maquiagem impecável.  Ele está aqui justamente para nos dizer que não há obrigação nem de um nem de outro. O feminismo não quer que você seja devassa nem puritana. Quer que cada uma seja dona da sua própria vida sexual, sem que o resto da sociedade sinta-se no direito de julgá-la.

O feminismo não define se você terá um filho, ou dois, ou seis, ou nenhum. Ele é sobre ter o direito de escolher quando, como e se você os terá. Feminismo é, como eu já disse, liberdade; no modo de viver, de vestir, de falar, de ser mulher.

Acho importante ressaltar, inclusive, que ser feminista não significa concordar com este texto. Cada pessoa constrói o seu próprio feminismo, com suas percepções sobre gravidez, sobre burca, sobre depilação, sobre sexualidade. Não existe um manual de instruções para ser feminista, o que existe são discussões, sempre pautadas no diálogo civilizado, em prol da equidade de gênero.

O teste apresentado no início desta coluna, inclusive, não é universalmente aceito pelos feministas. Ele foi proposto por Cynthia Semíramis, doutoranda em direito pela UFMG e pesquisadora da história dos direitos das mulheres. Sinta-se à vontade para concordar ou discordar dela, e tenha certeza que o feminismo vai ganhar (e muito!) ao conhecer o seu ponto de vista.

Penso ser importante ressaltar também que digo “os feministas” porque ser feminista não é só para as mulheres. Que o diga Justin Trudeau, primeiro ministro do Canadá, que durante uma entrevista no Fórum Econômico Mundial disse: “Feminismo é uma palavra que não deve nos assustar. Homens e mulheres devem usá-la para se descreverem sempre que quiserem. O papel que temos como homens é o de apoiar e lutar pela igualdade e exigir uma mudança”.

Portanto, mais do que saber as datas correspondentes a cada uma das fases do feminismo de cabeça, ou saber recitar as célebres frases das mulheres que se destacaram na luta pelo empoderamento feminino de cor e salteado, é importante sempre ter em mente que o feminismo existe para que tenhamos sempre a certeza de sermos livres.

E que precisamos dele porque está cada vez mais difícil ter esta certeza neste mundo.

2 thoughts on “Mas afinal o que é esse tal de feminismo?

  1. Lembrando que o fato de querermos direitos iguais, não nos torna seres de comportamento em massa. Mas cada um tem suas particularidades. E assim como direitos iguais, vem na bagagem deveres também. Assim como homens devem ajudar em casa, uma vez que fazem parte , mulheres também podem Trocar chuveiro, aparafusar uma porta.
    E sim, sou feminista e entendo que apesar dos direitos iguais, sou mulher e possuo grandes diferenças para com os guris.

  2. Muito bom seu posicionamento, temos muito que caminhar ainda, agora o que me assusta é que ONU elegeu Arábia Saudita para Comissão dos Direitos das Mulheres, será que é para melhor ou pior não entendi essa escolha deles; isso me assusta, será que eles poderia fazer parte como um regime mais destruidor do mundo e que viola totalmente os direitos humanos e das mulheres ter voz ativa na ONU?

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