Girls Power

As definições de gênero foram atualizadas

Em 1949, o mundo deparou-se pela primeira vez com a célebre frase: “Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres”.

Quando a escreveu, Simone de Beauvoir deu o pontapé inicial para o que hoje conhecemos como gênero. Segundo o dicionário, tal palavra tem como um dos significados “conjunto de seres que se acham ligados pela similitude de uma ou mais particularidades”. Achou difícil de entender? Tudo bem. Deixe-me tentar explicar.

Comecemos tentando definir um único critério que possibilite englobar todas as mulheres em um grupo só. A primeira ideia, provavelmente, será o tipo de sistema reprodutor. Ainda dentro dos úteros de suas mães, os bebês são vistos de quase todos os ângulos possíveis, e, a depender do que há em sua região pélvica, são separados em “meninos” ou “meninas”.

Então nos deparamos com João Nery. Nascido em um corpo feminino, desde os três anos ele se identificava como homem. Na década de 1970, fez retirada do útero e dos óvulos, fez mamoplastia masculinizadora e uma neouretra, que o possibilitou urinar em pé. Sabendo que a justiça não lhe permitiria trocar de nome, foi ao cartório e tirou novos documentos com sua identidade masculina. Com isso, perdeu sua formação em Psicologia e seu mestrado, tendo de sobreviver em empregos que não necessitassem de educação formal. Após toda esta jornada, o projeto de lei que reconhece identidade de gênero como um direito do cidadão e busca facilitar a mudança de nome e de gênero foi batizado em sua homenagem.

O oposto também ocorre. Nascida Leandro, em Belo Horizonte, a modelo Lea T submeteu-se, em 2012, a uma cirurgia de mudança de sexo. Em 2015, entrou para a lista da Forbes das 12 mulheres que mudaram a moda italiana; não por acaso, tendo em vista que, residente em Milão desde a adolescência, tornou-se a primeira modelo transgênero do mundo a aparecer em uma grande campanha, pela grife Givenchy.

E, é claro, há o caso daqueles como Liniker, vocalista da banda Liniker e os Caramelows, que aboliram as barreiras entre o feminino e o masculino. “[…] Eu posso ser uma mulher de barba que usa batom. […] Esse sou eu”, disse Liniker, em entrevista para o Estadão.

E, é claro, há o caso daqueles como Liniker, vocalista da banda Liniker e os Caramelows, que aboliram as barreiras entre o feminino e o masculino. “[…] Eu posso ser uma mulher de barba que usa batom. […] Esse sou eu”, disse Liniker, em entrevista para o Estadão.

Definamos então um critério biológico. É homem quem nasce com um cromossomo X e um Y, mulher, com dois cromossomos X. Mas como explicar, então, os intersexuais?

Você talvez já tenha ouvido falar deles como hermafroditas: pessoas com aparência exterior de um sexo e anatomia interior majoritariamente referente ao outro. Mas o que você provavelmente não sabia é que alguns intersexuais nascem com uma parte das células com cromossomos XX e outra com cromossomos XY.

Partamos, então, da questão hormonal. Todos os seres humanos possuem os mesmos hormônios, de modo que poderíamos diferenciá-los pela quantidade. Homens possuem, majoritariamente, testosterona, enquanto mulheres produzem mais estrógeno. A não ser, é claro, que a pessoa possua uma disfunção hormonal ou um estilo de vida que estimule a produção do hormônio referente ao sexo oposto; por muitas vezes, mulheres atletas apresentaram níveis de testosterona acima da média feminina, mesmo sem a ingestão de hormônio sintético.

Ser mulher, então, não está associado a possuir útero. Ou dois cromossomos X. Ou a baixas produções de testosterona. O que seria, então?

Talvez uma boa distinção seja dada pelas vestimentas das pessoas. Todavia, houve uma época em que era impensável que uma mulher usasse calças. E, embora em nossa sociedade atual o uso de saias por parte dos homens possa parecer estranho, há lugares em que isto é comum – na Escócia, os kilts cerimoniais são usados como trajes de gala. E como classificaríamos o Rolling Stones, com seus cabelos compridos, e o Kiss, com suas maquiagens pesadas, e todos os milhares de artistas influenciados por David Bowie, referência em androgenia?

Chegamos, então, aonde Simone queria nos levar. Não se nasce mulher – se torna mulher, porque se aprende a andar como uma mulher, a falar como uma mulher, a se vestir como uma mulher. Melhor: se aprende a andar, falar e vestir como se acha que uma mulher deve fazer.

Por isso, quando paramos para pensar, vemos que não há limites formais para o que é ser mulher, bem como para ser homem. O que realmente vale é o modo como a consciência de cada um se identifica: seja de um jeito, de outro, dos dois ou de nenhum.

Devagar, os conceitos de masculino e feminino vêm se fundindo: a campanha Tudo Lindo & Misturado, da C&A, estourou na mídia por mostrar modelos trajando roupas de ambas as sessões da loja, independente do gênero. Seria demais esperar, no entanto, que eles desaparecessem da noite para o dia. Após a repercussão, a C&A foi a público desmentir que estivesse propondo uma coleção sem gênero, e sim afirmar que sua proposta estava mais voltada para liberdade de escolha na hora de vestir.

Para a Sociologia, o conceito de cultura não é fixo. À medida que os indivíduos que compõe a sociedade em questão vivem novas situações, desenvolvem novas tecnologias, propões novas ideias, sua mentalidade muda, e, com ela, mudam também os hábitos culturais. Isso não significa, em absoluto, que a mudança seja rápida, muito menos fácil.

Por isso, por enquanto, parar de dividir o mundo em “coisa de homem” e “coisa de mulher” já é um baita de um avanço.