Girls Power

Vai ter menina de armadura sim

Sempre me perguntei como alguém podia livrar o mundo do crime usando salto alto e roupas que mal cobriam o corpo.

Não é preciso ser um profundo conhecedor de histórias em quadrinhos (ou de suas adaptações para o cinema e para a TV) para pensar em uma heroína que se enquadre nesta descrição. Mulher Maravilha e Viúva Negra, maiores expoentes atuais da DC e da Marvel, respectivamente, representam bem o estereótipo acima citado.

Figurino com apelo sexual, cabelo e maquiagem impecáveis, grandes talentos – mas não grandes a ponto de superarem os protagonistas masculinos (o Batman e o Capitão América, por exemplo).  Temos aí os ingredientes quem compõem a maioria das personagens femininas das chamadas HQs.

Na década de 1960, as revistas protagonizadas por elas não atingiam nem metade da vendagem daquelas com heróis homens. Suas personalidades não eram elaboradas, mas seus corpos ficavam muito bem nos uniformes apertados – que não deixavam espaço para a imaginação do público alvo dos quadrinhos, isto é, adolescentes do sexo masculino.

Com o passar dos anos, a sociedade evoluiu em relação à questão da objetificação dos corpos das mulheres, mas o mesmo não ocorreu nas redações de histórias em quadrinhos de super-heroínas. Elas continuaram a ter corpos impossíveis de ser adquiridos pelas meninas a quem deveriam inspirar, e serem desenhadas em poses que realçam suas zonas erógenas.

Quando questionadas, as principais editoras do mercado respondiam sempre que, sessenta anos depois, a estratégia de marketing permanecia a mesma porque o público alvo a ser atingido também permanecia o mesmo. As lojas e convenções voltadas para os fãs de quadrinhos, no entanto, mostravam o contrário: cada vez mais garotas consomem este tipo de conteúdo.

Em 2014, cansados de ouvir que não havia uma pesquisa de mercado que confirmasse esta tendência, alguns fãs (responsáveis pelo site http://www.comicsbeat.com/) analisaram as curtidas da página oficial da Marvel no Facebook – usando dados que estão disponíveis para todos – e concluíram que, dos 24 milhões de pessoas que se identificavam como fãs dos quadrinhos da editora, 46,67% eram mulheres.

Não foi surpresa descobrir também que 62,07% delas preferiam ler quadrinhos protagonizados por homens. Dificilmente uma garota da geração Z se interessará por enredos nos quais todas as personagens femininas possuem um perfil tão estereotipado do ponto de vista sexual.

Coincidência ou não, dois anos depois, a Marvel anunciou uma mudança radical em uma de suas mais tradicionais HQs. Enquanto Tony Stark, o Homem de Ferro, envereda por uma jornada para descobrir as origens de sua família, Riri Williams, uma brilhante estudante do MIT, assumirá seu lugar na defesa da Terra.

A garota, de apenas 15 anos, chama a atenção do gênio da informática após construir uma versão de sua armadura dentro do próprio quarto, usando apenas lixo eletrônico. Após algumas críticas referentes à primeira arte divulgada (que trazia a adolescente trajando roupas um tanto quanto reveladoras para alguém da sua idade), a equipe de desenhistas, que conta com um brasileiro, voltou às pranchetas e redefiniu o modo como Riri será retratada. Desde o jeito como fala até sua armadura, passando pelo cabelo afro, a jovem está sendo pensada de modo a representar as meninas que lerão suas histórias.

Voltando nossos olhos para o mundo oriental, nos deparamos com os mangás japoneses. Enquanto a indústria americana voltava-se para o mercado dos super-heróis, o Japão dividiu sua produção para dois públicos dentre os adolescentes: o feminino e o masculino. Esta decisão acabou se tornando um grande marco para toda uma geração de mulheres que então ingressava no mercado de trabalho: logo elas dominaram este nicho, e, atualmente, fazem do Japão o único país com mais mulheres do que homens e com maiores salários para elas nesta profissão.

Hoje em dias os limites entre os mangás voltados para garotos ou para garotas estão mais flexíveis: ao contrário do que aconteceu deste lado de Greenwich, muitos dos roteiristas souberam captar as novas tendências comportamentais da juventude e traduzi-las nas páginas das revistas. Se antes as temáticas giravam em torno de amores impossíveis, agora os roteiristas que buscam atingir o público alvo feminino abordam desde as questões mais íntimas – como a passagem pela puberdade e o despertar da sexualidade – até as mais abrangentes – como a participação feminina no mercado de trabalho e na política.

A total liberdade possuída tanto pelas garotas que escrevem tanto pelas que leem tais histórias pode ser surpresa para os mais desinformados: existe uma forte visão estereotipada de submissão da mulher japonesa ao sistema patriarcal, proveniente, sobretudo, do imaginário popular acerca das gueixas. Embora o Japão ainda seja um país conservador, é fato que, em muitos aspectos da igualdade de gênero, evoluiu mais rápido do que pensamos. Enquanto no Brasil o divórcio foi legalizado em 1977, na Terra do Sol Nascente ele existe desde a Era Meiji, iniciada um século antes.

Voltando ao lado de cá, apesar das décadas de machismo, já existem dezenas de títulos que buscam empoderar as mulheres, seja na qualidade de produtoras ou de consumidoras. Abaixo, seguem algumas sugestões:

Persépolis, de Marjane Satrapi (Irã)

Mafalda, de Quino (Argentina)

Magra de Ruim, de Sirlanney (Brasil)

Anna Bolenna, de Bi Anca (Brasil)

Boa leitura!

3 thoughts on “Vai ter menina de armadura sim

  1. SENSACIONAL…
    Aninha, texto muito bem escrito e reflexivo.
    Incentivou-me a voltar a escrever.
    Beijão. Já virei fã.

  2. Sou amante de historias em quadrinhos e incentivos meus filhos, quando criança minha mãe assinava Turma do Nosso Amiguinho. Esse post me remeteu a infância

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